Super OvO

Engordurado de Internet

Arquivo para o mês “outubro, 2014”

Diversão?

“Fun is all about our brains feeling good – the release of endorphins into our system”, em tradução livre diversão é sobre nosso cérebro se sentir bem – a liberação de endorfinas no nosso corpo, essa afirmação está escrita no livro A theory of Fun for Gamedesigners e como biólogo em formação devo concordar, a diversão antes de tudo é uma interpretação humana sobre o prazer, basicamente uma das moedas de troca do organismo para que os seres vivos façam algo, mas a discussão aqui foi inspirada por um post que li no site Gamasutra chamado No Fun em que Ivan Slovtsov, do projeto Pathologic no Kickstarter tenta se libertar da tão aclamada diversão nos jogos e sobre isso tenho meus dois dedos de opinião, principalmente ao ler os ótimos comentários.

No artigo podemos ver que há uma frustração, por que todo jogo tem que ser divertido? Essa é a questão central e é posto que quando vemos um filme ele não é necessariamente divertido, um exemplo de lá cita O Poderoso Chefão e o pondo no caso leva a imaginar se esse filme fosse sobre uma família tendo bons momentos, se divertindo enquanto administra a máfia, imagine também um filme sobre uma catástrofe enquanto todos se divertem tentando salvar suas vidas e por aí podemos dar exemplos quase infinitos. O que mais quero dar pitaco é que o autor se enrola um tanto, como visto nos comentários, e por que isso ocorre? Por causa disso, no final do texto o autor escreve o seguinte:

“PS: By “Fun” in this post I meant actually “Funny” and “grin provoking” fun, not fun as heaving a good time in general.”

Algo como: Estou falando aqui de diversão de uma forma mais como sensação de coisa engraçada ou de situações esquisitas e não de diversão no geral. Desculpem, mas não consigo traduzir Funny no sentido que o autor quer passar, então vamos ao assunto principal, por que o autor não deixa claro que é essa a forma que ele quer tratar de diversão tornando o texto muito mais coeso e menos polêmico? Isso não importa, o que importa é a discussão gerada em torno disso porque é fácil perceber que a argumentação do cara foi horrível só por causa dessa derrapada de só definir o “sobre o que” ele fala no final.

O que ele quis dizer? Bem, pra quem não é tão envolvido com jogos primeiro deve saber que alguém disse uma vez que todo jogo tem que ser divertido, mas algumas pessoas tomaram isso como todo jogo tem que me trazer sensação de poder ou ser engraçado para ser divertido, não podem questionar e não podem me passar sentimentos de angústia ou outros e essa interpretação pode ser extremamente prejudicial para quem quer produzir jogos, pois a pessoa vai cega nesse ideal e não consegue criar algo que realmente expresse o que sente, tornando o meio bem pobre e cheio de jogos vazios que em nada contribuem para a evolução dos meus amados joguinhos digitais, mas claro que não é como um apocalipse e sim mais para um efeito comum de produção para indústrias e o sonho do ser conhecido, poxa, eu também tenho esse sonho de ser conhecido e o meio de ganhar dinheiro é indústria, fora que não é todo dia que se tem paciência para algo profundo como Papers, Please ou Mass Effect (um jogo enorme, feito com pontos enlatados, como todas as alienígenas gostosas, mas cheio de awesome). O ponto que acho mais crítico é a influência que esse argumento de diversão tem nos jogadores mais “hardcore”, ou seja, os consumidores mais vorazes de games, que criam uma espécie de padronização velada que acaba selecionando somente aqueles sem alma… cof …. Destiny… cof, e pior, sufoca os que tentam sair desse padrão já chato – um doce pra quem conhece Depression Quest – gerando situações graves como o Gamergate (bem apresentado aqui).

Ainda bem que isso esta mudando, passamos por uma reviravolta do mercado e de alguns pensamentos quando o primeiro indie de grande sucesso conseguiu sair na Xbox Live, Braid, logo depois foi a enxurrada de indies que me fizeram repensar os videogames e agora estamos com a abertura do mundo dos jogos a discussões incrivelmente sérias que a algum tempo jamais seriam iniciadas pelo público-alvo de joguinhos do mario verde como a posição das mulheres, a transfobia, educação e etc, desculpe se fui muito incisivo sobre o público, não quis ser babaca, pois sou parte desse público, cresci assim e isso me leva ao pensamento de que esse primeiro contato direto com assuntos maduros se deve principalmente a isso, todos nós crescemos, nós que jogamos desde que nos conhecemos por gente, nós que temos um companheiro para todas as horas e obviamente os assuntos cresceram também, de qual o seu fatality preferido para por que a personagem feminina usa só calcinha como armadura, claro que como toda discussão vão existir os pombos enxadristas que só querem saber de bagunçar tudo e falar que ganharam e nesse início é importante combater eles, pois são barulhentos, prejudiciais a cultura do videogame, fazem com que todo esse avanço vá por água a baixo.

Volto agora ao antigo assunto, jogos digitais não precisam ter esse tipo de diversão a todo momento, eles podem ser tristes, difíceis, dar raiva, desafiar, angustiar, ensinar, te dar trabalho ou qualquer coisa que você imagine e essa é a beleza do amadurecimento dessa mídia, eu como aspirante a gamedesigner espero conseguir, entre um sem alma e outro para o pão, fazer coisas interessantes que me expressem e que construam algo diferente da velha diversão de sempre formada sobre tudo, parafrasearei o autor do post:

“As a Player, I want games to engage my personality, not just my reflexes or wits.

As a Player, I want games to change me as any form of arts does.

As a Player, I don’t want to have fun every single time I play.” Ivan Slovtsov

Como um jogador, eu quero jogos que envolvam minha personalidade, não apenas meus reflexos e destreza.

Como um jogador, eu quero jogos que me transformem como qualquer outra arte faz.

Como jogador, eu não quero diversão a todo momento que jogo. – Tradução lilvre

Fonte: No Fun

Bibliografia:

Koster, R.; A Theory of Fun for Game Designers. Paraglyph Press, 2005. 224 p.

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